Introdução do Livro "Verdade Absoluta" de Nancy Pearcey
Seu livro diz que os cristãos são chamados para resgatar culturas inteiras e não só indivíduos", comentou um professor que me acompanhava no almoço em uma conferência onde eu havia acabado de palestrar. E acrescentou, com expressão reflexiva no rosto: "Nunca tinha ouvido isso". O professor estava falando de E Agora, Como Viveremos?,1 e ao ouvir essas palavras encarei-o com surpresa. Ele estava dizendo que nunca ouvira falar da idéia de ser uma força redentora em cada área da cultura? Confirmando com a cabeça, respondeu:"E isso mesmo. Sempre pensei em salvação em termos de almas individualmente salvas". Essa conversa confirmou minha decisão de escrever um livro que continuasse a lidar com os temas da cosmovisão abordados em E Agora, Como Viveremos? Há alguns anos, quando comecei meu trabalho naquele livro, usar o termo cosmovisão não despertava interesse em boas conversas. Falar às pessoas que alguém estava escrevendo um livro sobre cosmovisão arriscaria receber olhares fixos e mudança rápida de assunto. Mas hoje, ao viajar pelos Estados Unidos, sinto a impaciência entre os evangélicos de ter mais que uma fé puramente privatizada, que aplique princípios bíblicos a áreas como trabalho, negócio e política. Abra ao acaso qualquer publicação cristã e achará meia dúzia de anúncios de conferências sobre cosmovisão, assim como institutos e programas. Claro que nos dias atuais o termo em si tem forte cunho de marketing, fato que assinala fome intensa entre os cristãos de uma estrutura envolvente que traga unidade às suas vidas. Este livro se dirige a quem tem fome e oferece nova direção para promover o movimento da cosmovisão. Ele ensina a identificar a divisão entre o secular e o sagrado, que mantém a fé trancada na esfera particular da "verdade religiosa". Conduz o leitor por etapas práticas e executáveis para formar habilmente uma cosmovisão cristã na vida e no trabalho, além de ensinar a aplicar uma grade de cosmovisão para sair do labirinto desnorteante de idéias e ideologias que há no mundo pós-moderno. O propósito dos estudos de cosmovisão não é nada menos que libertar o cristianismo de seu cativeiro cultural, desatrelando seu poder para transformar o mundo. "O evangelho é como um leão enjaulado", disse o grande pregador batista Charles Spurgeon. "Não precisamos defendê-lo, só precisamos deixar que saia da jaula." Hoje, a jaula é nossa acomodação à divisão secular/ sagrado que reduz o cristianismo a questão de crença pessoal e particular. Para destrancarmos a jaula, precisamos nos convencer de que, como disse Francis Schaeffer, o cristianismo não é mera verdade religiosa, mas a verdade total — a verdade sobre a totalidade da realidade. POLÍTICA NÃO BASTA A razão de a mensagem da cosmovisão ser tão atrativa hoje é que ainda estamos emergindo da era fundamentalista de princípios do século XX. Até essa época, os evangélicos tinham desfrutado uma posição de domínio cultural nos Estados Unidos. Entretanto, após o julgamento de Scopes e o surgimento do modernismo teológico, os conservadores religiosos se recolheram em si mesmos:"Fizeram um círculo com as carroças", desenvolveram uma mentalidade de fortaleza e patrocinaram o "separatismo" como estratégia positiva. Depois, nas décadas de 40 e 50, iniciou-se o movimento que almejava acabar com a fortaleza. Denominando-se neo-evangélicos, este grupo argumentava que somos chamados não para fugir da cultura circundante, mas para envolvê-la. O propósito era construir uma visão redentora que englobasse os indivíduos e as entidades e instituições sociais. Contudo, muitos evangélicos não tinham as ferramentas conceituais para a tarefa, fato que seriamente lhes limitou o sucesso. Por exemplo, nas últimas décadas muitos cristãos reagiram ao declínio moral e social na sociedade americana adotando o ativismo político. Os crentes estão se candidatando a cargos públicos em quantidade cada vez maior; as igrejas estão organizando inscrições eleitorais; grupos públicos de política estão proliferando; grande número de publicações cristãs e programas de rádio oferece comentários sobre assuntos públicos. Este ativismo intensificado deu bons resultados em muitas áreas da vida pública, mas o impacto é menor do que se esperava. Por quê? Porque os evangélicos arriscaram tudo em apenas uma única questão: Lançaram-se ao ativismo político como o modo mais rápido e mais seguro de fazer diferença no cenário público, sem perceber que a política tende a espelhar a cultura e não o contrário. Nada ilustra com mais clareza a obsessão dos evangélicos pela política que a história relatada por um advogado cristão. Pensando se aceitaria um emprego na capital dos Estados Unidos, ele consultou o líder de um ministério atuante, na região de Washington, que lhe disse:"Você pode ficar onde está e continuar advogando, ou pode ir para Washington e mudar a cultura". A implicação era que o único meio de efetuar mudança cultural era pela política nacional. Hoje, guerreiros políticos cansados da batalha estão mais realistas acerca dos limites dessa estratégia. Aprendemos que "a política é o rio abaixo da cultura e não o contrário", diz Bill Wichterman, conselheiro político do líder da maioria do senado, Bill Frist. "A verdadeira mudança tem de começar com a cultura. Tudo que podemos fazer no Capitólio é achar meios em que o governo crie tendências culturais saudáveis".2 Em comentário semelhante, um membro do Congresso Americano me disse: "Eu me envolvi com política depois que a lei a favor do aborto foi promulgada em 1973, porque pensei que fosse o caminho mais rápido para a reforma moral. Ganhamos algumas vitórias legislativas, mas perdemos a cultura". O trabalho mais eficaz, ele viera a perceber, é feito por cristãos comuns, cumprindo o chamado de Deus para reformar a cultura em suas esferas locais de influência — famílias, igrejas, escolas, bairros, lugares de trabalho, organizações profissionais e instituições cívicas. Para efetuar mudanças duradouras, concluiu o congressista americano, "precisamos desenvolver uma cosmovisão cristã".
PERDENDO OS FILHOS "Perdemos a cultura" e continuamos perdendo nossos filhos. A história trágica e repetitiva é que os jovens crentes, criados em lares cristãos, vão para a faculdade e abandonam a fé. Por que este padrão é tão comum? Em grande parte, porque eles não foram ensinados a desenvolver uma cosmovisão bíblica. Em vez disso, o cristianismo é restrito a uma área especializada de crença religiosa e devoção pessoal. Recentemente li um exemplo notável. Em certa escola secundária cristã americana, um professor de teologia colocou-se à frente da sala de aula e, de um lado do quadro-negro, desenhou um coração e, do outro, um cérebro. Os dois desenhos ocupavam partes iguais do quadro. Virando-se para a classe, disse: O coração é o que usamos para a religião, ao passo que fazemos uso do cérebro para a ciência. Uma história apócrifa? Uma caricatura de anti-intelectualismo cristão? Não, a história foi narrada por uma jovem que naquele dia estava na sala. Pior, entre uns duzentos alunos, e ela foi a única que contestou. Pelo visto, os demais não acharam nada incomum restringir a religião ao domínio do "coração".3 Na função de pais, pastores, professores e líderes cristãos de grupo de mocidade, vemos constantemente os jovens humilhados pela contracorrente de tendências culturais poderosas. Se tudo que lhes dermos for uma religião do "coração", não serão bastante fortes para se oporem à isca de idéias atraentes e perigosas. Os jovens crentes também precisam de uma religião do "cérebro" — educação em cosmovisão e apologética — para equipá-los na análise e crítica de cosmovisões concorrentes que eles encontrarão no mundo afora. Se estiverem prevenidos e armados, os jovens pelo menos terão a chance de lutar quando forem a minoria entre os companheiros de classe ou colegas de trabalho. Educar os jovens a desenvolver uma mente cristã já não é opção; é parte indispensável do equipamento de sobrevivência. CORAÇÃO VERSUS CÉREBRO O primeiro passo para formar uma cosmovisão cristã é superar esta divisão severa entre "coração" e "cérebro".Temos de rejeitar a divisão de vida em uma esfera sagrada, limitado a coisas como adoração e moralidade pessoal, em oposição a uma esfera secular que inclui ciência, política, economia e o restante do cenário público. Esta dicotomia em nossa mente é a maior barreira para liberar o poder do evangelho por toda a cultura de hoje. Esse conceito é reforçado por uma divisão muito mais ampla que racha a estrutura da sociedade moderna. Trata-se do que os sociólogos chamam de divisão público/particular. "A modernização provoca uma dicotomização moderna da vida social", escreve Peter Berger."A dicotomia está entre as instituições enormes e imensamente poderosas da esfera pública [com isso, ele quer dizer o estado, a educação, as grandes corporações] [...] e a esfera particular [o âmbito da família, igreja e relações pessoais]". As grandes instituições públicas afirmam que são "científicas" e "livres de valores", o que significa que são relegadas à esfera particular da escolha pessoal. Como explica Berger:"0 indivíduo conta apenas com dispositivos próprios na extensa gama de atividades que são cruciais para a formação de uma identidade significativa, desde expressar sua preferência religiosa a adotar um estilo de vida sexual".4 Poderíamos esquematizar a dicotomia assim:
As sociedades modernas estão nitidamente divididas:
ESFERAP PARTICULAR
Preferências Pessoais ___________________________________________________________
ESFERA PÚBLICA
Conhecimento Científico
Em suma, a esfera particular é levada pelas ondas do relativismo moral. Note a impressionante expressão de Berger:"preferência religiosa". A religião não é considerada uma verdade objetiva à qual nos submetemos, mas trata-se de mera questão de gosto pessoal que escolhemos. Por conta disto, a dicotomia chega a ser denominada divisão fato/valor. Os valores foram reduzidos a decisões arbitrárias e existenciais:
VALORES
Escolha Individual
___________________________________________________________
FATOS
Ligados a Todos
Como explica Schaeffer, o conceito da verdade está dividido — processo que ele ilustra com a imagem de um edifício de dois pavimentos. No pavimento de baixo estão a ciência e a razão, consideradas a verdade pública, atinentes a todo o mundo. Em contrapartida, há o pavimento de cima, da experiência não-cognitiva, que é o lócus do significado pessoal. Este é o reino da verdade particular, onde ouvimos as pessoas dizerem: "Isso é verdade para você, mas não é para mim".
A teoria da verdade em dois pavimentos:
PAVIMENTO DE CIMA
Não Racional, Não-cognitivo ___________________________________________________________
PAVIMENTO DE BAIXO Racional,Verificável
Quando Schaeffer estava escrevendo, o termo pós-modernismo não tinha sido cunhado, mas é lógico que era sobre isso que ele falava. Hoje, diríamos que no pavimento de baixo está o modernismo, que ainda afirma possuir a verdade universal e objetiva, ao passo que no pavimento de cima está o pós-modernismo. A verdade em dois pavimentos de hoje:
PÓS-MODERNISMO Subjetivo, Relativo a Grupos Particulares ___________________________________________________________
MODERNISMO Objetivo, Universalmente Válido
A razão de ser tão importante que aprendamos a reconhecer esta divisão é que se trata da arma mais poderosa que deslegitima a perspectiva bíblica no cenário público de hoje. Veja como funciona: Os secularistas são politicamente muito astutos para atacar a religião de modo frontal ou ridicularizá-la como falsa. Então, o que fazem? Eles consignam a religião à esfera do valor, desta forma excluindo-a da esfera do verdadeiro e do falso. Assim, os secularistas podem nos assegurar de que "respeitam" a religião, ao mesmo tempo em que negam haver relevância com a esfera pública. Como disse Phillip Johnson, a divisão fato/valor "permite que os naturalistas metafísicos apazigúem as pessoas religiosas potencialmente problemáticas, garantindo-lhes que a ciência não descarta a 'crença religiosa' (uma vez que não almeje ser conhecimento)" .h Em outras palavras, contanto que todos entendam que é apenas questão de sentimentos particulares. A grade de dois pavimentos funciona como guardiã que define o que deve ser levado a sério como conhecimento genuíno e o que pode ser rejeitado como simples desejosatisfação.
Só QUESTÃO DE PODER? Esta mesma divisão também explica por que os cristãos têm a dificuldade de comunicar-se no campo da discussão pública. É crucial percebermos que os não-crentes estão constantemente filtrando o que dizemos através da grade mental fato/valor. Por exemplo, quando declaramos a posição sobre o aborto, ou a bioética, ou a homossexualidade, queremos afirmar uma verdade moral objetiva importante para a saúde da sociedade; porém, eles pensam que estamos expressando somente nosso preconceito subjetivo. Quando dizemos que há evidências científicas a favor do desígnio no universo, nós queremos demarcar uma verdade examinável; mas eles dizem: "O direito religioso está se apoderando do poder político". A grade fato/valor dissolve de imediato o conteúdo objetivo de tudo que dizemos. Não teremos êxito em apresentar o conteúdo de nossa crença na discussão pública, a menos que encontremos meios de primeiro passar por esta guardiã. É por isso que Lesslie Newbigin advertiu que o conceito dividido da verdade é o fator primário no "cativeiro cultural do evangelho". Mantém preso o cristianismo no pavimento de cima dos valores privatizados, e o impede de causar efeito na cultura pública.7 Tendo trabalhado como missionário na índia por quarenta anos, Newbigin pôde discernir o que é distintivo no pensamento ocidental com mais clareza que nós, o qual esteve imerso por toda a nossa vida. Ao voltar para o Ocidente, ele ficou surpreso pelo modo como a verdade cristã foi marginalizada. Newbigin viu que toda posição rotulada de religião é colocada no pavimento de cima dos valores, onde não é mais considerada conhecimento objetivo. Para dar um exemplo recente, no debate sobre pesquisa de células-tronco embrionárias, o ator Christopher Reeve disse a um grupo de alunos da Universidade de Yale: "Quando questões de política pública estão em debate, nenhuma religião deve ter um lugar à mesa"? Para recuperar um lugar à mesa do debate público, os cristãos têm de encontrar um meio de vencer a dicotomia entre o público e o particular, o fato e o valor, o secular e o sagrado. Precisamos libertar o evangelho de seu cativeiro cultural e restabelecê-lo ao status de verdade pública. "A jaula que forma a prisão para o evangelho na cultura ocidental contemporânea é a acomodação [da igreja] [...] à dicotomia fato/valor", afirma Michael Goheen, professor de estudos sobre cosmovisão.9 Somente com a recuperação da visão holística da verdade total é que conseguiremos libertar o evangelho para se tornar a força redentora em todas as áreas da vida. MAPAS MENTAIS Afirmar que o cristianismo é a verdade sobre a realidade total significa dizer que é uma cosmovisão que envolve tudo. O termo significa, em seu sentido literal, visão do mundo, uma perspectiva biblicamente instruída sobre a totalidade da realidade. A cosmovisão é como um mapa mental que nos diz como navegar de modo eficaz no mundo. É a impressão da verdade objetiva de Deus em nossa vida interior. Poderíamos dizer que cada um de nós tem um modelo do universo dentro da cabeça que nos diz como o mundo é e como viver nele. Um clássico sobre cosmovisões é o livro intitulado O Universo ao Lado, que sugere que todos temos um universo mental ou conceituai no qual "vivemos" — uma rede de princípios que explica as questões fundamentais da vida: Quem somos? De onde viemos? Qual é o propósito da vida? O autor do livrojames Sire, convida os leitores a examinar muitas cosmovisões para entenderem o universo mental mantido pelas outras pessoas — as que vivem no "universo ao lado". Cosmovisão não é a mesma coisa que filosofia formal; caso contrário, só seria pertinente a filósofos profissionais. Até as pessoas comuns têm um conjunto de crenças sobre como a realidade funciona e como deveriam viver. Por termos sido feitos à imagem de Deus, todos buscamos dar sentido à vida. Certas crenças são conscientes, ao passo que outras são inconscientes, mas juntas formam um quadro mais ou menos consistente da realidade. Os seres humanos "são incapazes de manter opiniões puramente arbitrárias ou tomar decisões sem quaisquer princípios", escreve Al Wolters num livro sobre cosmovisão. Porque somos por natureza seres racionais e responsáveis, sentimos que "precisamos de algum credo pelo qual viver, algum mapa pelo qual traçar nosso curso".10 A noção de que precisamos de tal "mapa" surge, em primeiro lugar, da visão bíblica da natureza humana. Os marxistas afirmam que, no final das contas, o comportamento humano é moldado pelas circunstâncias econômicas; os freudianos atribuem tudo a instintos sexuais reprimidos; e os psicólogos comportamentais encaram os seres humanos pela ótica de mecanismos de estímulo-resposta. Todavia, a Bíblia ensina que o fator dominante nas escolhas que fazemos é nossa crença suprema ou compromisso religioso. Nossa vida é talhada pelo "deus" que adoramos — quer o Deus da Bíblia quer outra deidade substituta. O termo cosmovisão é tradução da palavra alemã Weltanschauung, que significa "modo de olhar o mundo" (welt, "mundo"; schauen, "olhar"). O romantismo alemão desenvolveu a idéia de que as culturas são conjuntos complexos nos quais certa perspectiva sobre a vida, ou o "espírito" da época, é expressa pelo painel da própria vida — na arte, literatura e instituições sociais, bem como na filosofia formal. O melhor modo de entender os produtos de qualquer cultura é entender a cosmovisão subjacente que se expressa. No entanto, a cultura muda ao longo do curso da história, e, assim, o uso original do termo cosmovisão denotou relativismo. Mais tarde, a palavra foi apresentada nos círculos cristãos por pensadores holandeses neocalvinistas, como Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd. Eles argumentavam que os cristãos não podem se opor aos princípios da época em que vivem, a menos que desenvolvam uma cosmovisão bíblica de igual modo abrangente — uma perspectiva sobre a vida que dê origem a formas de cultura distintamente cristãs —, com a qualificação importante de que não seja a mera crença relativística de uma cultura em particular, mas que esteja baseada na própria Palavra de Deus, a verdade para todas as épocas e lugares." NÃO SÓ EDUCACIONAL A medida que o conceito de cosmovisão se torna comum, é fácil ser mal compreendido. Alguns a encaram como outra matéria acadêmica a dominar — um exercício mental ou estratégia de "como fazer". Outros tratam a cosmovisão como se fosse uma arma na guerra cultural, uma ferramenta para o ativismo mais eficaz. Outros ainda (valha-me Deus!) a tratam pouco mais que uma nova palavra de efeito ou um recurso publicitário usado para deslumbrar o público e atrair doadores. O pensamento da genuína cosmovisão é muito mais que estratégia mental ou nova informação nos acontecimentos atuais. Em seu cerne, é um aprofundamento de nosso caráter espiritual e do caráter de nossa vida. Começa com a submissão de nossa mente ao Senhor do universo — a disposição voluntária de sermos ensinados por Ele. A força motriz dos estudos da cosmovisão tem de ser um compromisso a: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento..." (Lc 10.27) É por isso que a condição crucial para o crescimento intelectual é o crescimento espiritual, pedindo a Deus a graça de levar "cativo todo entendimento à obediência de Cristo" (2 Co 10.5). Deus não é apenas o Salvador de almas, é também o Senhor da criação. Um modo de reconhecermos seu senhorio é interpretar todo aspecto da criação, levando em conta a verdade divina. A Palavra de Deus torna-se os óculos que oferecem nova perspectiva sobre todos os nossos pensamentos e ações. Como ocorre com cada aspecto da santificação, a renovação da mente é dolorosa e difícil. Requer trabalho duro e disciplina, inspirado por um amor sacrificai a Cristo e um desejo ardente de edificar o seu Corpo, a Igreja. Para termos a mente de Cristo, devemos estar dispostos a sermos crucificados com Ele, indo aonde quer que nos conduza — a qualquer preço. "Pois que por muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus" (At 14.22). A medida que nos submetemos ao refinamento no fogo do sofrimento, nossos desejos são purificados e acabamos desejando nada mais que curvar toda fibra de nosso ser, inclusive nossas faculdades mentais, para cumprir a Oração do Senhor:"Venha o teu Reino".Ansiamos por entregar todos os nossos talentos e dons aos seus pés a fim de promover os seus propósitos no mundo. Desenvolver uma cosmovisão cristã significa submeter nosso "eu" a Deus, em ato de devoção e serviço a Ele. FORMAÇÃO EM COSMOVISÃO Este livro aborda o tópico da cosmovisão tecendo discernimentos provenientes de três linhas.12 A Parte 1 leva em consideração a dicotomia secular/sagrado, o que restringe o cristianismo à esfera da verdade religiosa, criando mentes hipócritas e vidas fragmentadas. Para termos integridade pessoal, devemos estar propensos a desnudar todos os aspectos de nosso trabalho e vida à direção e poder de Deus. O pensamento da cosmovisão mostra-se uma esplendorosa via de acesso à alegria e satisfação; um modo de deixar que a faísca da luz da verdade de Deus incendeie cada canto e recanto de nossa vida. Esta seção também proporciona a educação prática e envolvente da cosmovisão. Mediante etapas específicas e objetivas, conduzirá o leitor a fazer com perícia uma cosmovisão biblicamente fundamentada em qualquer campo que use os elementos estruturais da criação, queda e redenção. Também lhe dará a oportunidade de praticar apologética, analisando cosmovisões não-cristãs. Afinal de contas, toda filosofia ou ideologia tem de responder às mesmas perguntas fundamentais: 1. CRIAÇÃO: Como tudo começou? De onde viemos? 2. QUEDA: O que deu errado? Qual é a fonte do mal e do sofrimento? 3. REDENÇÃO: O que fazer a esse respeito? Como concertar o mundo? Com a aplicação desta grade simples, identificamos as cosmovisões não-bíblicas e analisamos o ponto em que falharam. A Parte 2 considera a atenção na criação, o ponto de partida fundamental para qualquer cosmovisão. No Ocidente, o mito da criação predominante é a evolução darwinista; assim, não importa qual seja nosso campo de trabalho, temos de começar fazendo comentários críticos ao darwinismo, tratando de suas afirmações científicas e implicações de cosmovisão. Nesta seção, o leitor descobrirá como os mais recentes achados da ciência desacreditam as teorias naturalistas da evolução, ao mesmo tempo em que apóiam o conceito do desígnio inteligente. Talvez você se surpreenda ao inteirar-se de como o darwinismo foi agressivo ao ultrapassar os limites da ciência, configurando de novo as instituições sociais e legais dos Estados Unidos com efeitos devastadores. A Parte 3 observa o espelho da história para perguntar por que os evangélicos não têm uma tradição de cosmovisão forte. Por que a dicotomia secular/sagrado é tão universal? Aqui, voltamos ao passado americano para fazer uma excursão na história e herança do evangelicalismo nos Estados Unidos. Ao fazer uma busca minuciosa no sótão do passado, diagnosticamos o modo como determinados padrões de pensamento continuam moldando nossas mentes hoje.Aprendemos a identificar e vencer as barreiras que derrotam o pensamento da cosmovisão. A Parte 4 nos mostra que o âmago do pensamento da cosmovisão acha-se em sua aplicação prática e pessoal. A renovação da mente só ocorre pela submissão de nosso "eu" ao senhorio de Cristo. Devemos estar dispostos a nos sentar aos pés de Jesus e ser ensinados por Ele, como fez Maria de Betânia, conscientizando-nos de que "uma [coisa] só é necessária" (Lc 10.42). Dada nossa natureza humana caída, é típico não nos sentarmos de fato diante do Senhor até que sejamos forçados por crises advindas de tristeza, perda ou injustiça. É somente quando somos privados de nossos sonhos e ambições pessoais que verdadeiramente morremos para nossa própria maneira de fazer as coisas. A união com Cristo em sua morte e ressurreição é o único caminho para a santificação do coração e da mente, sendo conformados à semelhança de Cristo.
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