Introdução do Livro "Verdade Absoluta" de Nancy Pearcey






Seu  livro  diz  que  os  cristãos  são  chamados  para  resgatar  culturas  inteiras  e  não  só indivíduos",  comentou  um  professor  que  me  acompanhava  no  almoço  em  uma  conferência onde  eu  havia  acabado  de  palestrar.  E  acrescentou,  com  expressão  reflexiva  no  rosto: "Nunca  tinha  ouvido  isso". O professor  estava  falando  de  E  Agora,  Como  Viveremos?,1  e  ao  ouvir  essas  palavras encarei-o  com  surpresa.  Ele  estava  dizendo  que  nunca  ouvira  falar  da  idéia  de  ser  uma  força redentora  em  cada  área  da  cultura?  Confirmando  com  a  cabeça,  respondeu:"E  isso  mesmo. Sempre pensei  em salvação em termos  de  almas individualmente salvas". Essa  conversa  confirmou  minha  decisão  de  escrever  um  livro  que  continuasse  a  lidar com  os  temas  da  cosmovisão  abordados  em  E  Agora,  Como  Viveremos?  Há  alguns  anos, quando  comecei  meu  trabalho  naquele  livro,  usar  o  termo   cosmovisão   não  despertava interesse  em  boas  conversas.  Falar  às  pessoas  que  alguém  estava  escrevendo  um  livro  sobre cosmovisão  arriscaria  receber  olhares  fixos  e  mudança  rápida  de  assunto.  Mas  hoje,  ao viajar pelos  Estados  Unidos, sinto  a  impaciência  entre os evangélicos de ter  mais  que uma fé puramente  privatizada,  que  aplique  princípios  bíblicos  a  áreas  como  trabalho,  negócio  e política.  Abra  ao  acaso  qualquer  publicação  cristã  e  achará  meia  dúzia  de  anúncios  de conferências  sobre  cosmovisão,  assim  como  institutos  e  programas.  Claro  que  nos  dias atuais  o  termo  em  si  tem  forte  cunho  de  marketing,  fato  que  assinala  fome  intensa  entre  os cristãos de uma  estrutura  envolvente  que  traga unidade  às  suas vidas. Este  livro  se  dirige  a  quem  tem  fome  e  oferece  nova  direção  para  promover  o movimento da cosmovisão. Ele  ensina a  identificar  a divisão  entre o  secular e  o  sagrado, que mantém  a  fé  trancada  na  esfera  particular  da  "verdade  religiosa".  Conduz  o  leitor  por  etapas práticas  e  executáveis  para  formar  habilmente  uma  cosmovisão  cristã  na  vida  e  no  trabalho, além  de  ensinar  a  aplicar  uma  grade  de  cosmovisão  para  sair  do  labirinto  desnorteante  de idéias e  ideologias que há  no mundo  pós-moderno. O propósito  dos  estudos  de  cosmovisão  não  é  nada  menos  que  libertar  o  cristianismo de  seu  cativeiro  cultural,  desatrelando  seu  poder para transformar o  mundo. "O  evangelho  é  como  um  leão  enjaulado",  disse  o  grande  pregador  batista  Charles Spurgeon.  "Não  precisamos  defendê-lo,  só  precisamos  deixar  que  saia  da  jaula."  Hoje,  a jaula  é  nossa  acomodação  à  divisão  secular/  sagrado  que  reduz  o  cristianismo  a  questão  de crença  pessoal  e  particular.  Para  destrancarmos  a  jaula,  precisamos  nos  convencer  de  que, como  disse  Francis  Schaeffer,  o  cristianismo  não  é  mera  verdade  religiosa,  mas  a  verdade total —  a  verdade  sobre  a  totalidade  da  realidade. POLÍTICA  NÃO  BASTA A  razão  de  a  mensagem  da  cosmovisão  ser  tão  atrativa  hoje  é  que  ainda  estamos emergindo  da  era  fundamentalista  de  princípios  do  século  XX.  Até  essa  época,  os evangélicos  tinham  desfrutado  uma  posição  de  domínio  cultural  nos  Estados  Unidos. Entretanto,  após  o  julgamento  de  Scopes  e  o  surgimento  do  modernismo  teológico,  os conservadores   religiosos   se   recolheram   em  si  mesmos:"Fizeram  um  círculo  com  as carroças",  desenvolveram  uma  mentalidade  de  fortaleza  e  patrocinaram  o  "separatismo" como  estratégia  positiva.  Depois,  nas  décadas  de  40  e  50,  iniciou-se  o  movimento  que almejava  acabar  com a  fortaleza. Denominando-se  neo-evangélicos,  este  grupo  argumentava que  somos  chamados  não  para  fugir  da  cultura  circundante,  mas  para  envolvê-la.  O propósito  era  construir  uma  visão  redentora  que  englobasse  os  indivíduos  e  as  entidades  e instituições sociais. Contudo,  muitos  evangélicos  não  tinham  as  ferramentas  conceituais  para  a  tarefa, fato  que  seriamente  lhes  limitou  o  sucesso.  Por  exemplo,  nas  últimas  décadas  muitos cristãos  reagiram  ao  declínio  moral  e  social  na  sociedade  americana  adotando  o  ativismo político.  Os  crentes  estão  se  candidatando  a  cargos  públicos  em  quantidade  cada  vez  maior; as   igrejas   estão   organizando   inscrições   eleitorais;   grupos   públicos   de   política   estão proliferando;   grande   número   de   publicações   cristãs   e   programas   de   rádio   oferece comentários  sobre  assuntos  públicos.  Este  ativismo  intensificado  deu  bons  resultados  em muitas  áreas  da  vida  pública,  mas  o  impacto  é  menor  do  que  se  esperava.  Por  quê?  Porque os  evangélicos  arriscaram  tudo  em  apenas  uma  única  questão:  Lançaram-se  ao  ativismo político  como  o  modo  mais  rápido  e  mais  seguro  de  fazer  diferença  no  cenário  público,  sem perceber  que  a  política tende a  espelhar  a  cultura e  não  o contrário. Nada  ilustra  com  mais  clareza  a  obsessão  dos  evangélicos  pela  política  que  a  história relatada  por  um  advogado  cristão.  Pensando  se  aceitaria  um  emprego  na  capital  dos  Estados Unidos,  ele  consultou  o  líder  de  um  ministério  atuante,  na  região  de  Washington,  que  lhe disse:"Você  pode  ficar  onde  está  e  continuar  advogando,  ou  pode  ir  para  Washington  e mudar  a  cultura".  A  implicação  era  que  o  único  meio  de  efetuar  mudança  cultural  era  pela política  nacional.  Hoje,  guerreiros  políticos  cansados  da  batalha  estão  mais  realistas  acerca dos  limites  dessa  estratégia.  Aprendemos  que  "a  política  é  o  rio  abaixo  da  cultura  e  não  o contrário",  diz  Bill  Wichterman,  conselheiro  político  do  líder  da  maioria  do  senado,  Bill Frist.  "A  verdadeira  mudança  tem  de  começar  com  a  cultura.  Tudo  que  podemos  fazer  no Capitólio é  achar meios  em que o  governo crie  tendências  culturais  saudáveis".2 Em  comentário  semelhante,  um  membro  do  Congresso  Americano  me  disse:  "Eu  me envolvi  com  política  depois  que  a  lei  a  favor  do  aborto  foi  promulgada  em  1973,  porque pensei  que  fosse  o  caminho  mais  rápido  para  a  reforma  moral.  Ganhamos  algumas  vitórias legislativas,  mas  perdemos  a  cultura".  O  trabalho  mais  eficaz,  ele  viera  a  perceber,  é  feito por  cristãos  comuns,  cumprindo  o  chamado  de  Deus  para  reformar  a  cultura  em  suas  esferas locais  de  influência  —  famílias,  igrejas,  escolas,  bairros,  lugares  de  trabalho,  organizações profissionais   e   instituições   cívicas.   Para   efetuar   mudanças   duradouras,   concluiu   o congressista  americano,  "precisamos desenvolver  uma  cosmovisão cristã". 

PERDENDO  OS  FILHOS "Perdemos  a  cultura"  e  continuamos  perdendo  nossos  filhos.  A  história  trágica  e repetitiva   é  que  os  jovens  crentes,  criados  em  lares  cristãos,  vão  para  a  faculdade  e abandonam  a  fé.  Por  que  este  padrão  é  tão  comum? Em  grande  parte,  porque  eles  não  foram ensinados  a  desenvolver  uma  cosmovisão  bíblica.  Em  vez  disso,  o  cristianismo  é  restrito  a uma área  especializada  de crença  religiosa  e  devoção pessoal. Recentemente  li  um  exemplo  notável.  Em  certa  escola  secundária  cristã  americana, um  professor  de  teologia  colocou-se  à  frente  da  sala  de  aula  e,  de  um  lado  do  quadro-negro, desenhou  um  coração  e,  do  outro,  um  cérebro.  Os  dois  desenhos  ocupavam  partes  iguais  do quadro.  Virando-se  para  a  classe,  disse:  O  coração  é  o  que  usamos  para  a  religião,  ao  passo que  fazemos uso do  cérebro para a  ciência. Uma  história  apócrifa?  Uma  caricatura  de  anti-intelectualismo  cristão?  Não,  a história foi  narrada por  uma jovem  que  naquele dia  estava  na  sala. Pior,  entre  uns  duzentos  alunos,  e  ela  foi  a  única  que  contestou.  Pelo  visto,  os  demais não  acharam  nada incomum  restringir  a  religião ao  domínio do  "coração".3 Na  função  de  pais,  pastores,  professores  e  líderes  cristãos  de  grupo  de  mocidade, vemos  constantemente  os  jovens  humilhados  pela  contracorrente  de  tendências  culturais poderosas.  Se  tudo  que  lhes  dermos  for  uma  religião  do  "coração",  não  serão  bastante  fortes para se oporem à isca de idéias atraentes e perigosas. Os jovens crentes também precisam de uma  religião  do  "cérebro"  —  educação  em  cosmovisão  e  apologética  —  para  equipá-los  na análise  e  crítica  de  cosmovisões  concorrentes  que  eles  encontrarão  no  mundo  afora.  Se estiverem prevenidos e  armados, os jovens pelo menos terão a chance de lutar quando forem a  minoria  entre  os  companheiros  de  classe  ou  colegas  de  trabalho.  Educar  os  jovens  a desenvolver  uma  mente  cristã  já  não  é  opção;  é  parte  indispensável  do  equipamento  de sobrevivência. CORAÇÃO  VERSUS  CÉREBRO O  primeiro  passo  para  formar  uma  cosmovisão  cristã  é  superar  esta  divisão  severa entre  "coração"  e  "cérebro".Temos  de  rejeitar  a  divisão  de  vida  em  uma  esfera  sagrada, limitado  a  coisas  como  adoração  e  moralidade  pessoal,  em  oposição  a  uma  esfera  secular que  inclui  ciência,  política,  economia  e  o  restante  do  cenário  público.  Esta  dicotomia  em nossa mente é  a  maior barreira  para  liberar  o poder  do evangelho  por toda  a  cultura de hoje. Esse  conceito  é reforçado  por  uma  divisão  muito  mais  ampla  que  racha  a estrutura  da sociedade  moderna.  Trata-se  do  que  os  sociólogos  chamam  de  divisão  público/particular.  "A modernização provoca uma  dicotomização  moderna  da vida social",  escreve  Peter Berger."A dicotomia  está  entre  as  instituições  enormes  e  imensamente  poderosas  da  esfera  pública [com  isso,  ele  quer  dizer  o  estado,  a  educação,  as  grandes  corporações]  [...]  e  a  esfera particular [o  âmbito da  família, igreja  e  relações pessoais]". As grandes instituições públicas afirmam que são "científicas" e "livres de valores", o que  significa  que  são  relegadas  à  esfera  particular  da  escolha  pessoal.  Como  explica Berger:"0  indivíduo  conta  apenas  com  dispositivos  próprios  na  extensa  gama  de  atividades que  são  cruciais  para  a  formação  de  uma  identidade  significativa,  desde  expressar  sua preferência  religiosa  a  adotar  um  estilo  de  vida  sexual".4  Poderíamos  esquematizar  a dicotomia  assim: 

As  sociedades  modernas  estão  nitidamente  divididas: 

ESFERAP PARTICULAR 

Preferências Pessoais ___________________________________________________________ 

ESFERA PÚBLICA

 Conhecimento  Científico

 Em suma,  a  esfera particular  é levada  pelas ondas  do relativismo  moral.  Note  a impressionante expressão de Berger:"preferência  religiosa".  A  religião  não  é considerada uma verdade  objetiva  à qual  nos submetemos,  mas  trata-se  de  mera  questão de  gosto  pessoal que  escolhemos.  Por  conta  disto,  a  dicotomia  chega a  ser  denominada divisão fato/valor. Os  valores foram reduzidos a  decisões  arbitrárias  e  existenciais: 

VALORES 

Escolha Individual

 ___________________________________________________________

 FATOS

 Ligados a  Todos

 Como  explica Schaeffer,  o conceito  da  verdade  está dividido —  processo  que  ele ilustra com a  imagem  de  um edifício  de  dois pavimentos. No  pavimento  de  baixo estão  a ciência e  a  razão,  consideradas  a  verdade  pública, atinentes a  todo o  mundo.  Em contrapartida,  há o  pavimento  de  cima, da experiência  não-cognitiva, que  é  o lócus do significado pessoal.  Este é  o  reino da verdade particular, onde ouvimos as pessoas  dizerem: "Isso é  verdade para  você,  mas  não  é para mim". 

A teoria  da verdade  em  dois  pavimentos: 

PAVIMENTO  DE  CIMA 

Não Racional,  Não-cognitivo ___________________________________________________________ 

PAVIMENTO DE BAIXO Racional,Verificável 

Quando  Schaeffer  estava escrevendo,  o termo  pós-modernismo  não  tinha sido cunhado,  mas é  lógico  que era sobre isso que ele falava.  Hoje, diríamos  que  no pavimento de baixo  está o  modernismo,  que  ainda  afirma possuir a  verdade universal e  objetiva,  ao passo  que  no pavimento de  cima  está o  pós-modernismo. A verdade em dois pavimentos  de hoje: 

PÓS-MODERNISMO Subjetivo, Relativo  a Grupos Particulares ___________________________________________________________

 MODERNISMO Objetivo,  Universalmente  Válido 


A razão  de ser tão importante  que aprendamos  a  reconhecer esta  divisão é  que se trata da  arma  mais  poderosa  que  deslegitima  a  perspectiva  bíblica  no  cenário  público  de  hoje. Veja  como  funciona:  Os  secularistas  são  politicamente  muito  astutos  para  atacar  a  religião de  modo  frontal  ou  ridicularizá-la  como  falsa.  Então,  o  que  fazem?  Eles  consignam  a religião à  esfera do  valor,  desta forma excluindo-a da esfera  do verdadeiro  e  do falso.  Assim, os  secularistas  podem  nos  assegurar  de  que  "respeitam"  a  religião,  ao  mesmo  tempo  em  que negam  haver  relevância com a  esfera pública. Como  disse  Phillip  Johnson,  a  divisão  fato/valor  "permite  que  os  naturalistas metafísicos  apazigúem  as  pessoas  religiosas  potencialmente  problemáticas,  garantindo-lhes que  a  ciência  não  descarta  a  'crença  religiosa'  (uma  vez  que  não  almeje  ser  conhecimento)" .h  Em  outras  palavras,  contanto  que  todos  entendam  que  é  apenas  questão  de  sentimentos particulares.  A  grade  de  dois  pavimentos  funciona  como  guardiã  que  define  o  que  deve  ser levado  a  sério  como  conhecimento  genuíno  e  o  que  pode  ser  rejeitado  como  simples  desejosatisfação. 

Só  QUESTÃO  DE  PODER? Esta  mesma  divisão  também  explica  por  que  os  cristãos  têm  a  dificuldade  de comunicar-se  no  campo  da  discussão  pública.  É  crucial  percebermos  que  os  não-crentes estão  constantemente  filtrando  o  que  dizemos  através  da  grade  mental  fato/valor.  Por exemplo,   quando   declaramos   a   posição   sobre   o   aborto,   ou   a   bioética,   ou   a homossexualidade,  queremos  afirmar  uma  verdade  moral  objetiva  importante  para  a  saúde da  sociedade;  porém,  eles  pensam  que  estamos  expressando  somente  nosso  preconceito subjetivo.  Quando  dizemos  que  há  evidências  científicas  a  favor  do  desígnio  no  universo, nós  queremos  demarcar  uma  verdade  examinável;  mas  eles  dizem:  "O  direito  religioso  está se  apoderando  do  poder  político".  A  grade  fato/valor  dissolve  de  imediato  o  conteúdo objetivo  de  tudo  que  dizemos.  Não  teremos  êxito  em  apresentar  o  conteúdo  de  nossa  crença na  discussão  pública, a  menos que encontremos  meios  de  primeiro passar por esta  guardiã. É  por  isso  que  Lesslie  Newbigin  advertiu  que  o  conceito  dividido  da  verdade  é  o fator   primário  no  "cativeiro  cultural  do  evangelho".  Mantém  preso  o  cristianismo  no pavimento  de  cima  dos  valores  privatizados,  e o  impede  de  causar  efeito  na  cultura  pública.7 Tendo  trabalhado  como  missionário  na  índia  por  quarenta  anos,  Newbigin  pôde  discernir  o que  é  distintivo  no  pensamento  ocidental  com  mais  clareza  que  nós,  o  qual  esteve  imerso por  toda  a  nossa  vida.  Ao  voltar  para  o  Ocidente,  ele  ficou  surpreso  pelo  modo  como  a verdade  cristã  foi  marginalizada.  Newbigin  viu  que  toda  posição  rotulada  de   religião   é colocada  no  pavimento  de  cima  dos  valores,  onde  não  é  mais  considerada  conhecimento objetivo. Para   dar   um  exemplo   recente,   no   debate   sobre   pesquisa   de   células-tronco embrionárias,  o  ator  Christopher  Reeve  disse  a  um  grupo  de  alunos  da  Universidade  de Yale:  "Quando  questões  de  política  pública  estão  em  debate,  nenhuma  religião  deve  ter  um lugar  à mesa"? Para  recuperar  um  lugar  à  mesa  do  debate  público,  os  cristãos  têm  de  encontrar  um meio  de  vencer  a  dicotomia  entre  o  público  e  o  particular,  o  fato  e  o  valor,  o  secular  e  o sagrado.  Precisamos  libertar  o  evangelho  de  seu  cativeiro  cultural  e  restabelecê-lo  ao  status de  verdade  pública.  "A  jaula  que  forma  a  prisão  para  o  evangelho  na  cultura  ocidental contemporânea  é  a  acomodação  [da  igreja]  [...]  à  dicotomia  fato/valor",  afirma  Michael Goheen,  professor  de  estudos  sobre  cosmovisão.9  Somente  com  a  recuperação  da  visão holística  da  verdade  total  é  que  conseguiremos  libertar  o  evangelho  para  se  tornar  a  força redentora em todas as  áreas da vida. MAPAS  MENTAIS Afirmar  que  o  cristianismo  é  a  verdade  sobre  a  realidade  total  significa  dizer  que  é uma  cosmovisão  que  envolve  tudo.  O  termo  significa,  em  seu  sentido  literal,   visão  do mundo,   uma  perspectiva   biblicamente   instruída   sobre   a   totalidade   da   realidade.   A cosmovisão  é  como  um  mapa  mental  que  nos  diz  como  navegar  de  modo  eficaz  no  mundo. É  a  impressão da  verdade objetiva  de  Deus em  nossa  vida interior. Poderíamos  dizer  que  cada  um  de  nós  tem  um  modelo  do  universo  dentro  da  cabeça que  nos  diz  como  o  mundo  é  e  como  viver  nele.  Um  clássico  sobre  cosmovisões  é  o  livro intitulado  O   Universo  ao  Lado,   que  sugere  que  todos  temos  um  universo  mental  ou conceituai   no   qual   "vivemos"   —  uma  rede  de  princípios  que  explica  as  questões fundamentais  da  vida:  Quem  somos?  De  onde  viemos?  Qual  é  o  propósito  da  vida?  O  autor do  livrojames  Sire,  convida  os  leitores  a  examinar  muitas  cosmovisões  para  entenderem  o universo  mental mantido pelas  outras pessoas  — as  que vivem no  "universo ao lado". Cosmovisão  não  é  a  mesma  coisa  que  filosofia  formal;  caso  contrário,  só  seria pertinente  a  filósofos  profissionais.  Até  as  pessoas  comuns  têm  um  conjunto  de  crenças sobre como a  realidade funciona e como  deveriam viver. Por termos sido feitos à imagem de Deus,  todos  buscamos  dar  sentido  à  vida.  Certas  crenças  são  conscientes,  ao  passo  que outras  são  inconscientes,  mas  juntas  formam  um  quadro  mais  ou  menos  consistente  da realidade.  Os  seres  humanos  "são  incapazes  de  manter  opiniões  puramente  arbitrárias  ou tomar  decisões  sem  quaisquer  princípios",  escreve  Al  Wolters  num  livro  sobre  cosmovisão. Porque  somos  por  natureza  seres  racionais  e  responsáveis,  sentimos  que  "precisamos  de algum credo pelo  qual  viver,  algum mapa  pelo qual traçar  nosso curso".10 A noção  de  que  precisamos  de  tal  "mapa"  surge,  em  primeiro  lugar,  da  visão  bíblica da  natureza  humana.  Os  marxistas  afirmam  que,  no  final  das  contas,  o  comportamento humano  é  moldado  pelas  circunstâncias  econômicas;  os  freudianos  atribuem  tudo  a  instintos sexuais  reprimidos;  e  os  psicólogos  comportamentais  encaram  os  seres  humanos  pela  ótica de  mecanismos  de  estímulo-resposta.  Todavia,  a  Bíblia  ensina  que  o  fator  dominante  nas escolhas  que  fazemos  é  nossa  crença  suprema  ou  compromisso  religioso.  Nossa  vida  é talhada pelo  "deus"  que  adoramos  — quer  o Deus  da  Bíblia quer  outra deidade  substituta. O  termo  cosmovisão   é  tradução  da  palavra  alemã   Weltanschauung,   que  significa "modo  de  olhar  o  mundo"   (welt,   "mundo";   schauen,   "olhar").  O  romantismo  alemão desenvolveu  a  idéia  de  que  as  culturas  são  conjuntos  complexos  nos  quais  certa  perspectiva sobre  a  vida,  ou  o  "espírito"  da  época,  é  expressa  pelo  painel  da  própria  vida  —  na  arte, literatura  e  instituições  sociais,  bem  como  na  filosofia  formal.  O  melhor  modo  de  entender os  produtos  de  qualquer  cultura  é  entender  a  cosmovisão  subjacente  que  se  expressa.  No entanto,  a  cultura  muda  ao  longo  do  curso  da  história,  e,  assim,  o  uso  original  do  termo cosmovisão  denotou relativismo. Mais  tarde,  a  palavra  foi  apresentada  nos  círculos  cristãos  por  pensadores  holandeses neocalvinistas,  como  Abraham  Kuyper  e  Herman  Dooyeweerd.  Eles  argumentavam  que  os cristãos   não   podem  se  opor  aos  princípios  da  época  em  que  vivem,  a  menos  que desenvolvam  uma  cosmovisão  bíblica  de  igual  modo  abrangente  —  uma  perspectiva  sobre  a vida  que  dê  origem  a  formas  de  cultura  distintamente  cristãs  —,  com  a  qualificação importante  de  que não seja a mera crença  relativística de uma  cultura  em particular, mas  que esteja baseada  na  própria  Palavra de Deus, a  verdade para  todas as épocas e  lugares." NÃO  SÓ  EDUCACIONAL A  medida  que  o  conceito  de  cosmovisão  se  torna  comum,  é  fácil  ser  mal compreendido.  Alguns  a  encaram  como  outra  matéria  acadêmica  a  dominar  —  um  exercício mental  ou  estratégia  de  "como  fazer".  Outros  tratam  a  cosmovisão  como  se  fosse  uma  arma na  guerra  cultural,  uma  ferramenta  para  o  ativismo  mais  eficaz.  Outros  ainda  (valha-me Deus!)  a  tratam  pouco  mais  que  uma  nova  palavra  de  efeito  ou  um  recurso  publicitário usado  para  deslumbrar  o público  e  atrair  doadores. O  pensamento  da  genuína  cosmovisão  é  muito  mais  que  estratégia  mental  ou  nova informação  nos  acontecimentos  atuais.  Em  seu  cerne,  é  um  aprofundamento  de  nosso caráter  espiritual  e  do  caráter  de  nossa  vida.  Começa  com  a  submissão  de  nossa  mente  ao Senhor  do  universo  —  a  disposição  voluntária  de  sermos  ensinados  por  Ele.  A  força  motriz dos  estudos  da  cosmovisão  tem  de  ser  um  compromisso  a:  "Amarás  ao  Senhor,  teu  Deus,  de todo  o  teu  coração,  e  de  toda  a  tua  alma,  e  de  todas  as  tuas  forças,  e  de  todo  o  teu entendimento..." (Lc 10.27) É  por  isso  que  a  condição  crucial  para  o  crescimento  intelectual  é  o  crescimento espiritual,   pedindo  a  Deus  a  graça  de  levar  "cativo  todo  entendimento  à  obediência  de Cristo"  (2  Co  10.5).  Deus  não  é  apenas  o  Salvador  de  almas,  é  também  o  Senhor  da  criação. Um modo  de  reconhecermos  seu  senhorio  é  interpretar  todo  aspecto  da  criação,  levando  em conta a  verdade divina.  A  Palavra de Deus torna-se os óculos que oferecem nova perspectiva sobre  todos os nossos pensamentos e  ações. Como  ocorre  com  cada  aspecto  da  santificação,  a  renovação  da  mente  é  dolorosa  e difícil.  Requer  trabalho  duro  e  disciplina,  inspirado  por  um  amor  sacrificai  a  Cristo  e  um desejo  ardente  de  edificar  o  seu  Corpo,  a  Igreja.  Para  termos  a  mente  de  Cristo,  devemos estar  dispostos  a  sermos  crucificados  com  Ele,  indo  aonde  quer  que  nos  conduza  —  a qualquer  preço.  "Pois  que  por  muitas  tribulações  nos  importa  entrar  no  Reino  de  Deus"  (At 14.22).  A  medida  que  nos  submetemos  ao  refinamento  no  fogo  do  sofrimento,  nossos desejos  são  purificados  e  acabamos  desejando  nada  mais  que  curvar  toda  fibra  de  nosso  ser, inclusive   nossas  faculdades  mentais,  para  cumprir  a  Oração  do  Senhor:"Venha  o  teu Reino".Ansiamos  por  entregar  todos  os  nossos  talentos  e  dons  aos  seus  pés  a  fim  de promover  os  seus  propósitos  no  mundo.  Desenvolver  uma  cosmovisão  cristã  significa submeter  nosso "eu"  a  Deus, em ato  de  devoção e  serviço a  Ele. FORMAÇÃO  EM  COSMOVISÃO Este  livro  aborda  o  tópico  da  cosmovisão  tecendo  discernimentos  provenientes  de três  linhas.12  A  Parte  1  leva  em  consideração  a  dicotomia  secular/sagrado,  o  que  restringe  o cristianismo  à  esfera  da  verdade  religiosa,  criando  mentes  hipócritas  e  vidas  fragmentadas. Para  termos  integridade  pessoal,  devemos  estar  propensos  a  desnudar  todos  os  aspectos  de nosso  trabalho  e  vida  à  direção  e  poder  de  Deus.  O  pensamento  da  cosmovisão  mostra-se uma  esplendorosa  via  de  acesso  à  alegria  e  satisfação;  um  modo  de  deixar  que  a  faísca  da luz da verdade de Deus  incendeie cada  canto  e  recanto  de  nossa vida. Esta  seção  também  proporciona  a  educação  prática  e  envolvente  da  cosmovisão. Mediante  etapas  específicas  e  objetivas,  conduzirá  o  leitor  a  fazer  com  perícia  uma cosmovisão   biblicamente   fundamentada   em   qualquer   campo   que   use   os   elementos estruturais  da  criação,  queda  e  redenção.  Também  lhe  dará  a  oportunidade  de  praticar apologética,   analisando   cosmovisões   não-cristãs.   Afinal   de   contas,   toda   filosofia   ou ideologia  tem de responder às mesmas perguntas  fundamentais: 1.  CRIAÇÃO:  Como tudo  começou?  De  onde viemos? 2.  QUEDA: O  que deu errado?  Qual  é  a  fonte do  mal e  do  sofrimento? 3.  REDENÇÃO: O  que  fazer a  esse respeito?  Como concertar o  mundo? Com  a  aplicação  desta  grade  simples,  identificamos  as  cosmovisões  não-bíblicas  e analisamos  o ponto  em que falharam. A  Parte  2  considera  a  atenção  na  criação,  o  ponto  de  partida  fundamental  para qualquer   cosmovisão.   No  Ocidente,   o  mito  da  criação  predominante  é  a  evolução darwinista;  assim,  não  importa  qual  seja  nosso  campo  de  trabalho,  temos  de  começar fazendo  comentários  críticos  ao  darwinismo,  tratando  de  suas  afirmações  científicas  e implicações  de  cosmovisão.  Nesta  seção,  o  leitor  descobrirá  como  os  mais  recentes  achados da  ciência  desacreditam  as  teorias  naturalistas  da  evolução,  ao  mesmo  tempo  em  que apóiam  o  conceito  do  desígnio  inteligente.  Talvez  você  se  surpreenda  ao  inteirar-se  de  como o  darwinismo  foi  agressivo  ao  ultrapassar  os  limites  da  ciência,  configurando  de  novo  as instituições sociais e  legais dos Estados Unidos com efeitos devastadores. A  Parte  3  observa  o  espelho  da  história  para  perguntar  por  que  os  evangélicos  não têm  uma  tradição  de  cosmovisão  forte.  Por  que  a  dicotomia  secular/sagrado  é  tão  universal? Aqui,  voltamos  ao  passado  americano  para  fazer  uma  excursão  na  história  e  herança  do evangelicalismo  nos  Estados  Unidos.  Ao  fazer  uma  busca  minuciosa  no  sótão  do  passado, diagnosticamos  o  modo  como  determinados  padrões  de  pensamento  continuam  moldando nossas   mentes  hoje.Aprendemos  a  identificar  e  vencer  as  barreiras  que  derrotam  o pensamento da cosmovisão. A  Parte  4  nos  mostra  que  o  âmago  do  pensamento  da  cosmovisão  acha-se  em  sua aplicação  prática  e  pessoal.  A  renovação  da  mente  só  ocorre  pela  submissão  de  nosso  "eu" ao senhorio  de  Cristo.  Devemos estar  dispostos a nos  sentar aos pés  de Jesus  e ser ensinados por  Ele,  como  fez  Maria  de  Betânia,  conscientizando-nos  de  que  "uma  [coisa]  só  é  necessária"  (Lc  10.42).  Dada  nossa  natureza  humana  caída,  é  típico  não  nos  sentarmos  de  fato diante  do  Senhor  até  que  sejamos  forçados  por  crises  advindas  de  tristeza,  perda  ou injustiça.  É  somente  quando  somos  privados  de  nossos  sonhos  e  ambições  pessoais  que verdadeiramente  morremos  para  nossa  própria  maneira  de  fazer  as  coisas.  A  união  com Cristo  em  sua  morte  e  ressurreição  é  o  único  caminho  para  a  santificação  do  coração  e  da mente, sendo conformados à  semelhança  de Cristo. 

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